A bela
ilustração de Bruno Aziz homenageia as reflexões de Mãe Stella
Maria
Stella de Azevedo Santos
Este é o último artigo que comenta sobre o “corpo religioso” do
candomblé, da maneira como ele é professado no terreiro/templo Ilê Axé Opô
Afonjá, onde fui iniciada e me tornei iyalorixá. Já foram feitas observações
sobre cosmogonia – origem do mundo segundo o povo yorubá; liturgia – cerimônias
abertas ao público; dogmas – verdades reveladas pelos orixás, que são aceitas
usando-se o critério da fé. Hoje o tema é ritual: cerimônias que se baseiam em
mitos que foram sendo transmitidos pelos ancestrais. Nos rituais revivemos
passagens importantes dos orixás aqui na Terra e, assim, conectamo-nos com o
comportamento deles. Os rituais, através dos mitos, ensinam para nós os
comportamentos que devem ser seguidos e os que devem ser evitados. Muitos
desses rituais são repetidos em épocas específicas, pois têm que estar em
conexão com os ciclos da natureza. É de fundamental importância que os
sacerdotes busquem e adquiram esse conhecimento, pois só assim os rituais
alcançam todo seu potencial.
A grande polêmica que fazem com a religião dos orixás é o fato de
em alguns de seus rituais animais serem sacrificados. Uma prática que existe
desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas
religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta
é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma
barbaridade?
A resposta é simples: essa religião tem uma profunda relação com o
planeta Terra, tanto que suas danças são feitas com os pés totalmente plantados
no chão, diferente do balé, que parece demonstrar que os bailarinos, dançando
nas pontas dos pés, desejam alcançar o céu. Essa ligação com a terra não
poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver.
Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos,
flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no
dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco,
boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia
o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus
semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao
fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve
também são seres vivos.
Afinal, quando arrancamos uma raiz de inhame para que ela faça
parte da nossa farta mesa de café da manhã, nem lembramos que sacrificamos um
ser vivo. Neste caso é para nos servir de alimento, e quando arrancamos uma
flor pelo simples prazer de curtir sua beleza? Gostaria, apenas, que as pessoas
que criticam os nossos rituais refletissem sobre o que foi dito anteriormente,
com o coração e a mente aber ta, e chegassem às suas próprias conclusões. Não é
nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação
fornecer subsídios para ajudar as pessoas a ampliarem o conhecimento de suas
mentes, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de
preconceitos, o que faz com que eles se tornem mais purificados.
Caso tudo o que falei ainda não tenha servido para que o
sacrifício de animais no candomblé possa ser compreendido, quero lembrar que os
animais de que o povo se alimenta no seu dia a dia são mortos em série, de
maneira cruel, nos abatedouros. Os nossos animais são reverenciados desde que
são escolhidos nas feiras livres, até o momento em que são oferecidos aos
orixás, quando cobrimos seus olhos com folhas específicas de calma e cantamos a
fim de diminuir o estresse que eles possam estar sentindo. Além disso, eles não
são animais quaisquer, são escolhidos aqueles que o sacerdote consagrado para
esta função percebe que já estão no momento de passar para outro estágio
evolutivo. Não matamos o animal, damos a ele um novo nascimento, por isso
cantamos: Bi ewe yeje para lala ie, Ògún pere pa = Demos-lhes um novo
nascimento, você resistiu à prova, ultrapassou seguramente privações e
sofrimentos, você não está morto, está vivo. Somente Ogun mata.
Maria
Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

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